Como salienta Luigi Pareyson, mais que apresentar uma definição para arte é importante compreender que ela é construção, conhecimento e expressão. O fazer artístico perpassa pela imitação e transformação do real, criando novas formas e significados, gerando sentidos que provocam perguntas e ampliam as formas de dizer e externar emoções,conhecimentos e pensamentos. Chegamos ao século 21 com visões que no mínimo trazem a essência do que pode ser cultura e arte; nada dentro desta esfera é finito e imutável, ou seja, cultura e arte são abertas para o “acontecer”. Entender a arte como um relato aberto e um condensado de experiências, como sugere Imanol Aguirre Arriaga, pode ser um ponto de partida para introduzir os conceitos propostos, pois o aluno iniciará sua aprendizagem a partir de suas referências e construirá um diálogo com as obras, os artistas, as produções individuais e coletivas dos colegas que será ampliado com as experiências propostas e mediadas pelo professor, possibilitando a compreensão da arte como materialização estética de todo um sistema de crenças, valores, formas, projetos, sensibilidades, desmistificando a obra de arte e o artista como algo transcendental. Sendo assim,nossa missão, enquanto educadores na arte,é propor conhecimento e experiências para que haja uma nova construção de pensamentos para uma expressão mais ampla e libertária.
Dessa forma podemos refletir sobre as questões que compreendem um pensar sobre as diferenciações existentes em relação à arte popular e erudita. Será que arte erudita é mais elaborada que a arte popular?A arte popular é intuitiva e trata de valores locais, regionais; representa as crenças, lendas, costumes típicos de determinado povo, sendo um paradoxo de um pensamento que valoriza a arte pelas técnicas e conceitos utilizados pelo artista. O artista popular traduz o universo no qual ele vive, seu dia-a-dia humilde e, muitas vezes, difícil. As obras eruditas são marcos de determinadas épocas e trazem reflexões acerca dos modos de expressão plástica e de inovações conceituais. Ambas formas de arte são elaboradas de acordo com os preceitos abordados.Hoje percebemos que a arte está mais acessível,não é mais privilégio de uma minoria,tanto na criação como na apreciação,nem necessita de materiais considerados artísticos ,como a tinta a óleo,o mármore, o bronze, enfim os materiais considerados nobres na tradição artística.
A arte contemporânea vem abordando muitas questões referentes à cultura, às questões sociais e pessoais; os artistas não se limitam na utilização de materiais, linguagens e meios, não operam no fazer artístico pensando na durabilidade da criação, o importante não é o produto final, mas o pensar sobre ele, a possibilidade de reflexão que propõe assim como o processo de criação que envolve a idéia. O espectador ganha um novo espaço, ele participa da obra e esta só “acontece”-só ganha seu sentido- através do olhar,do pensar, das referências culturais, da bagagem de mundo de quem interage com ela.Artista e espectador vivenciam experiências através da criação.O problema é que ainda existem os pré-conceitos em relação à arte contemporânea que impedem que muitos a percebam como arte,com a relevância que lhe deve ser atribuída, estando presos à idéias tradicionais de arte. Essas concepções antigas são encontradas no nosso dia-a-dia, a idéia de cultura e arte é limitada, ainda pensam na disciplina como um “recreio” no currículo. Por isso a importância da mediação cultural compreendendo a arte em seus amplos sentidos,significados e possibilidades.Projetos que abordem a arte contemporânea em sala de aula devem ser desenvolvidos através de aprendizagens significativas para os alunos, buscando unir conhecimentos e vivências anteriores às novas experiências.
Os projetos são instrumentos de extrema relevância para uma aprendizagem significativa, pois como Nilson José Machado bem disse, eles são inerentes ao ser humano, sem projeto não há vida. E a capacidade de projetar abarca a compreensão da consciência de que somos seres de mudança, "afinando e desafinando", como cita Guimarães Rosa, onde tempos e lugares distintos exigem modos de ser distintos. Respeitar a pluralidade, a diversidade e a coletividade é estar aberto para aprender com o outro, com outra cultura, outro lugar. Esse encontro com o outro acontece, segundo Larrosa, através do reconhecimento, quando nos vemos no outro, da apropriação, quando convertemos o outro em nós mesmos e da experiência, a qual é fundamental para efetivar o significado da aprendizagem e nos ajuda a alargar nosso ser para transformar a realidade que nos cerca. Segundo Paulo Freire “o homem, ser de relações, e não só de contatos, não apenas está no mundo, mas com o mundo”, e a partir desta relação, além de aprender com o outro, há de se apreender o que ele nos oferece, ou seja, sua cultura.
Jalilian Vital Stábile (novembro de 2011)