sábado, 29 de maio de 2021

Sobre verdade, ceticismo e relativismo.

QUESTIONE TUDO 💭





Questione tudo! E porquê não questionar isso também? O absurdo do relativismo está nisso, se tudo é relativo então a própria afirmação é relativa, o que cria um paradoxo. Mas a dúvida é válida. "Questione tudo" na prática implica um contexto contraditório. Se eu devo questionar tudo por que eu deveria aceitar essa premissa? O mais coerente, do ponto de vista cético, é questionar. Por quê?
O ceticismo parte do pressuposto que você deve questionar. Questionar é sábio. Mas é importante saber quando questionar, ou então entramos no ceticismo absoluto de Descartes. Para muitas pessoas, ceticismo é o mesmo que teimosia, duvidar de tudo. Mas duvidar de tudo é incoerente com nossa realidade, a humanidade não evoluiria. Isso vale para para o conhecimento científico e também para outros aspectos que envolvem o ser humano. Questionar tudo e duvidar de tudo são coisas diferentes. Mas também o questionamento indiscriminado é contrário ao que o ceticismo atual defende. Questionar por questionar, sem nenhuma razão ou critério, de nada serve.

 A dúvida é o contrário da certeza. Duvidar é pensar, mas sem estar seguro da verdade do que se pensa.

Os céticos fazem da dúvida o estado último do pensamento. Os dogmáticos, quase sempre, uma condição prévia. Assim acontece com Descartes: a sua dúvida metódica e hiperbólica (quer dizer, exagerada: ele toma como falso tudo aquilo que sabe ser duvidoso) não é mais do que um momento provisório, na sua procura da certeza.

Descartes sai dela através do cogito, que não é duvidoso, e de Deus, que não é enganador. Mas o seu Deus é duvidoso, diga ele o que disser, e nada impede que o cogito seja enganador. Assim a dúvida renasce sempre. Não se sai dela senão pelo sono ou pela ação.

[André Comte-Sponville. Dictionnaire philosophique. Paris: PUF, 2001, Verbete “Doute”]




Como dizia Nietzsche "Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas". Na história não há verdades absolutas, somente pontos de vista. Não há fatos, mas sim interpretações diferentes de um mesmo fato. O que importa é o significado que esses fatos têm para cada pessoa. Existem várias verdades para um mesmo fato. Nossas verdades são um misto de perspectivas relacionadas a nossa própria experiência individual, estão atreladas ao racional e emocional, às opiniões e ao meio social, à época em que vivemos, aos costumes e ao repertório pessoal de cada um. É mais relativa que absoluta, exatamente por isso.


Em nossa vida, nós damos algumas algumas coisas como certas, o amor, a sinceridade de nossos amigos, estabilidade no emprego etc. Não há uma garantia que seja verdade. Isso garante um nível de confiança que permite seguirmos a vida sem acordar todos os dias com medo de perdas. Ou que precise se conformar com outra realidade que não queira. Temos motivos para aceitar verdades, não há razões para questionar isso, a menos que o nível de confiança no que consideramos verdade seja abalado por novas informações. E aí entra o ceticismo. Ceticismo requer esforço e tempo. Por isso duvidar de tudo é complicado, é razoável duvidar quando não se tem informações suficientes, ou quando essas informações são duvidosas e tendenciosas, quando alguém se beneficia com a informação, ou com a mentira; ou quando novas informações te fazem questionar um conhecimento anterior. Cabe a nós a decisão do que é realmente cabível a questionamentos.