Essa visita a um espaço cultural foi desenvolvida com alunos do 6º ano, faixa etária entre 11
e 12 anos no ano de 2011. Por ser a professora deles encaminhei a visita
relacionando-a com o que vinha sendo trabalhado em sala de aula em relação à
materialidade, contando com o auxilio de duas outras funcionárias da escola .
A
instituição visitada foi o Museu de Arte de Ribeirão Preto - MARP, onde ocorria
uma exposição de arte contemporânea. Os alunos tiveram contato com obras
contemporâneas de forma mais significativa, em contato direto com a obra;
ultrapassando o limite das imagens bidimensionais que são a forma mais usual de
aproximação com a arte no meio em que vivem. Essa proposta faz parte do projeto Lugares de Aprender, do Programa
Cultura é Currículo da Secretaria de Estado da Educação; foram disponibilizados
todos os recursos necessários para sua viabilização, como ônibus e alimentação
para os alunos, sendo tudo organizado e agendado previamente pela escola.
Os alunos
chegaram ao museu sem saber muito bem o que iriam encontrar especificamente e
um pouco tímidos por ser a primeira visita a um espaço expositivo. Com o processo
educativo monitorado pelos mediadores do museu e por mim eles foram interagindo com as obras
expostas e chegando a um entendimento próximo sobre o que é a arte contemporânea.
Ao chegarmos fomos recepcionados pelos monitores que foram nos guiando pelas
salas onde eram apresentadas formas diferenciadas de produções contemporâneas,
englobando serigrafias, esculturas, fotografias, desenhos, pinturas e
instalações. Assim, fiz um paralelo com o que vínhamos abordando sobre matéria,
suporte e ferramenta em sala de aula, aproveitando as obras como uma forma de
dar visibilidade e significado ao conteúdo. Dessa maneira, a visita se
articulou à aprendizagem que geralmente é desenvolvida em quatro paredes tendo
como auxilio a mediação não só do professor mas também dos monitores do museu
em suas ações pedagógicas. Mesmo começando a compreender o sentido da arte
contemporânea muitos alunos ainda olhavam para as obras com aquela expressão de
inconformismo em aceitá-las como arte, outros já sabiam que cada obra queria dizer
algo, que cada material usado foi escolhido pelo artista por algum motivo;
começaram a agir como se quisessem descobrir um enigma da mesma forma que agiam
quando fazíamos a leitura e interpretação das imagens vistas em seus cadernos,
mas ali mostravam mais entusiasmo por estarem frente às obras. Todo o
significado estava escondido nas obras e eles sabiam que tinham que descobrir
através de seus próprios olhares e da mediação desenvolvida, sabiam que não
estavam ali apenas para admirarem uma obra, apreciando a técnica e a forma. Por
isso, apesar do estranhamento provocado por essa arte tão diferente pra eles,
não houve desinteresse nem descaso, e sim uma abertura para a leitura estética
e a vontade em compreendê-la de forma significativa, as conversas foram
brotando sentidos nas obras e vários outros sentidos florescendo nos alunos. Orientamos
os alunos a se sentarem no chão, todos juntos, depois da apreciação das obras,
para desenvolvermos uma roda de conversa sobre todas suas impressões e
curiosidades. A visita transcorreu de forma tranquila e propícia às
aprendizagens.
Voltando à sala de aula, depois da reflexão sobre a
experiência vivenciada por eles e por mim como educadora, iniciamos a fase de
produção. Solicitei aos alunos produções artísticas com matérias, suportes e
ferramentas diversificados, mapeados em seus cadernos. A atividade foi
desenvolvida em grupos de quatro a cinco alunos em um processo colaborativo. Os
orientei a pensarem em suas obras de forma contemporânea, assim como os
artistas da exposição fizeram em seus processos de criação, aplicando um
sentido e dando importância à expressão. Foram criados objetos, esculturas,
pinturas, assemblage e também
produções musicais.
O interessante também nessa visita foi que a
instituição não se apresenta como um ambiente de sacralização das obras de arte,
os alunos não as viram com aquela àurea artística comumente associada aos
museus; isso despertou mais o interesse deles, se perceberam como parte atuante
das obras e não apenas admiradores de uma arte possível de ser viabilizada
somente por artistas dotados de dons divinos, que devem ser cultuadas. Percebi
que essa parceria entre escolas e museus viabilizam esse processo de dessacralização,
os alunos passam a pensar nesses espaços de mediação de uma forma menos fria e
distante, como um lugar onde apenas os mais cultos devem frequentar; assim,
começam a estar mais abertos à experiências nesse sentido, sem receios .
O MARP também tem sua importância como patrimônio
cultural da cidade, o prédio que o abriga foi construído no início do século
passado tendo passado por uma reforma em 1992; apesar das grandes dificuldades
estruturais, desde o início imprimiu ao longo de seu percurso um perfil voltado
à arte contemporânea, com atividades direcionadas a formação de público,
recebendo importantes mostras históricas. Os mediadores trouxeram à tona a
importância de valorizar e aproveitar os bens patrimoniais disponibilizados em
nossa região para ampliarmos nossos repertórios culturais e conhecermos mais
sobre tudo que nos cerca em nossa trajetória.
Como foi meu primeiro ano na rede de ensino não sabia
exatamente como proceder no início; foi algo um pouco assutador, um desafio, pois para mim, assim como para os alunos, também foi a
primeira experiência em desenvolvimento de ações pedagódicas fora do ambiente
escolar. Gostei muito de poder proporcionar aos alunos algo diferente
relacionado às aprendizagens desenvolvidas na escola; possibilitando maior
significado ao que vínhamos abordando e ampliando as percepções sobre arte
contemporânea. Me senti mais responsável e confiante em minha atuação como
educadora.
Painéis de fotografias de vários artistas abordando o olhar no contexto de comunidades.
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