sábado, 2 de março de 2013

Mudanças de paradigmas da modernidade para a pós-modernidade e suas consequências para a ação educativa



De acordo com Nicolas Bourriaud, devemos entender a “situação” da arte atual, do artista em seu contexto, possibilitando assim, meios de mediação pertinentes à um público que se identifica nesse mesmo contexto. O arte/educador deve buscar em si mesmo essa contemporaneidade no processo de mediação, como alerta Ana Mae Barbosa(1995). A arte é produto da cultura, sugere uma subjetividade que não precisa ser explicada e sim sentida, com sentidos próprios abarcados pela mediação decorrente da necessidade de aproximação entre as variadas linguagens da arte e um público que dá vida e sentido à elas, fazendo acontecer a interação entre a “situação” de quem produz e a “situação” de quem vivencia a experiência estética. Para Bourriaud, hoje a arte “apresenta modelos de universos possíveis” (Bourriaud, 2009, p.18), não prepara nem anuncia um mundo futuro por já estarmos inseridos em vivências que não sugere mais querer saber sobre o que será e sim sobre o que é possível ser; como compreender o hoje para viver o amanhã. O mundo está em aceleração e é importante lidar com essa rapidez em que tudo acontece na pós-modernidade, por isso não há mais a necessidade de se preparar nem prever o futuro e sim de conviver com a amplitude de nossas ações no tempo que não para de correr e trazer novas experiências. Paradigmas positivistas ainda cercam nossa prática pedagógica, nossas relações com o mundo; é difícil desvencilhar a arte da idéia modernista de expressão, deixar de lado a utopia de uma sociedade melhor, mais evoluída através do progresso do mundo moderno, sendo que esse progresso é que causa tanto descontrole. Os paradigmas contextualistas da pós-modernidade remetem a uma visão de mundo mais real e em conformidade com as vivências em sociedade, havendo a coinsciência de que para viver o hoje não se deve deixar sufocar pela melancolia de não estar em um mundo perfeito, esperando sempre um amanhã melhor como forma de fugir do que não é agradável.
Segundo Arthur Efland, os paradigmas da arte pós-moderna em contrariedade aos da arte moderna marca muitos contrastes- a arte como forma de produção cultural em vez de isolada de seu contexto; o estudo organizado em torno de narrativas múltiplas trazendo a ideia de trocas no lugar da ideia de progresso; o estudo dando destaque à crítica em vez de incentivar as pessoas a só apreciarem as contribuições da elite à sociedade; a possibilidade de estudantes escolherem entre vários estilos em vez de serem encorajados apenas a experimentar com estilos abstratos e conceituais; o estímulo ao pluralismo estilístico possibilitando que alunos reconheçam e interpretem representações da realidade em vez de priorizar a variação estética reduzida ao mesmo conjunto universal de elementos e princípios- desse modo, a ação educativa pela visão modernista é pautada em experiências que mostram a arte com “um grau de excelência definido” (EFLAND, 2008, p. 177), sendo as produções artísticas isoladas de um contexto cultural e legitimadas em museus, distanciando-se da experiência de vida; uma mediação que não problematiza essa questão pode reforçar o distanciamento já que não há elementos contextuais para  aproximação dos sujeitos com as obras. A visão pós-moderna não considera só as grandes obras como passíveis de constituírem um currículo, todo contexto cultural comporta culturas que não foram eleitas para o círculo restrito da arte legitimada mas que mantém estreitas ligação entre elas, como a cultura popular e de massa. Esta visão pós-moderna torna o trabalho do mediador bem mais complexo mas alcança resultados mais positivos se desenvolvido de forma a viabilizar experiências e aprendizagens significativas diante da pluralidade de formas e produções artísticas, selecionando e mantendo a rede de significados das experiências ligadas à arte, trabalhando de forma estimulante à complexidade dessa visão pós-moderna que amplia e aproxima.
A contextualização é muito importante na prática pedagógica, situando e dando sentido à produções de todas as épocas. A mudança de paradigma da visão de progresso é fundamental para compreendermos a História da Arte a partir de múltiplas narrativas, evitando o etnocentrismo e o anacronismo no processo ensino/aprendizagem. A história não é uma progressão de acontecimentos, onde o posterior é melhor que o anterior; a arte e sua história deve ser compreendida para gerar sentido ao que vemos e vivemos hoje. É importante mostrar aos alunos que em todas as épocas da história houveram pessoas, artistas, produções, inovações e acontecimentos que nos trouxeram onde estamos, que tiveram o mesmo grau de importância para a contrução da complexidade de ideias, sentidos, expressões e conhecimentos que cercam o ser humano. Um desenho das cavernas é tão importante para a história da arte como uma tela da renascença. Assim como, nas aulas, o aluno deve compreender que ele não está ali para aprender a desenhar e pintar perfeitamente, mas sim desenvolver sua forma de diálogo com a arte, onde uma produção nunca é melhor que a outra; um desenho feito por ele hoje não é melhor que o feito aos três anos de idade, sua forma de representação do que vê e sente é que mudou.
A arte contemporânea possibilita que o aluno se sinta parte de um mundo onde antes, no ideário da maioria das pessoas, poderia fazer parte apenas quem tinha dons; onde a ideia de exclusividade e originalidade permeavam as produções artísticas. Nas aulas ele começa a perceber a variedade de linguagens, materialidades, ferramentas, intenções que pode instigar seu fazer, podendo operar com ressignificações, apropriações e releituras, sem definições estilísticas. A superação da versão idealista e teleológica do modernismo é importante para que os educadores superem a prevalência de modelos universalizantes.
Como educadores- difusores e mediadores da cultura- devemos pensar em formas de nos situar diante de nossos referenciais, de nossa formação e prática através de representações e crenças pessoais. As ações educativas decorrem de nossa história, nosso repertório; é importante pensar em nós mesmos como seres em construção, inacabados, em processo também de mediação; mas ao mesmo tempo usando toda a nossa experiência para gerar novas formas de aprendizagem que aborde os novos paradigmas do mundo pós-moderno. Como situa Darras (2009,p.37), a mediação cultural se distingui em duas grandes abordagens; muitos educadores insistem em fundamentar-se na perspectiva modernista promovendo somente a primeira delas, a “mediação diretiva”,que mais se aproxima da difusão, da transmissão de informações. A segunda abordagem, a “mediação construtivista”, garante o surgimento da construção dos processos interpretativos no destinatário da mediação e também no mediador, através de diversos meios inerentes à prática pedagógica, pensando em significado para as aprendizagens e mediações em consonância com as perspectivas não exclusivas da pós-modernidade.




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