De acordo com Nicolas Bourriaud, devemos entender a “situação”
da arte atual, do artista em seu contexto, possibilitando assim, meios de
mediação pertinentes à um público que se identifica nesse mesmo contexto. O
arte/educador deve buscar em si mesmo essa contemporaneidade no processo de
mediação, como alerta Ana Mae Barbosa(1995). A arte é produto da cultura, sugere
uma subjetividade que não precisa ser explicada e sim sentida, com sentidos
próprios abarcados pela mediação decorrente da necessidade de aproximação entre
as variadas linguagens da arte e um público que dá vida e sentido à elas,
fazendo acontecer a interação entre a “situação” de quem produz e a “situação”
de quem vivencia a experiência estética. Para Bourriaud, hoje a arte “apresenta
modelos de universos possíveis” (Bourriaud, 2009, p.18), não prepara nem
anuncia um mundo futuro por já estarmos inseridos em vivências que não sugere mais
querer saber sobre o que será e sim sobre o que é possível ser; como
compreender o hoje para viver o amanhã. O mundo está em aceleração e é
importante lidar com essa rapidez em que tudo acontece na pós-modernidade, por
isso não há mais a necessidade de se preparar nem prever o futuro e sim de
conviver com a amplitude de nossas ações no tempo que não para de correr e
trazer novas experiências. Paradigmas positivistas ainda cercam nossa prática
pedagógica, nossas relações com o mundo; é difícil desvencilhar a arte da idéia
modernista de expressão, deixar de lado a utopia de uma sociedade melhor, mais
evoluída através do progresso do mundo moderno, sendo que esse progresso é que
causa tanto descontrole. Os paradigmas contextualistas da pós-modernidade
remetem a uma visão de mundo mais real e em conformidade com as vivências em
sociedade, havendo a coinsciência de que para viver o hoje não se deve deixar sufocar
pela melancolia de não estar em um mundo perfeito, esperando sempre um amanhã
melhor como forma de fugir do que não é agradável.
Segundo Arthur Efland, os paradigmas da arte
pós-moderna em contrariedade aos da arte moderna marca muitos contrastes- a
arte como forma de produção cultural em vez de isolada de seu contexto; o estudo
organizado em torno de narrativas múltiplas trazendo a ideia de trocas no lugar
da ideia de progresso; o estudo dando destaque à crítica em vez de incentivar
as pessoas a só apreciarem as contribuições da elite à sociedade; a
possibilidade de estudantes escolherem entre vários estilos em vez de serem
encorajados apenas a experimentar com estilos abstratos e conceituais; o estímulo
ao pluralismo estilístico possibilitando que alunos reconheçam e interpretem
representações da realidade em vez de priorizar a variação estética reduzida ao
mesmo conjunto universal de elementos e princípios- desse modo, a ação
educativa pela visão modernista é pautada em experiências que mostram a arte
com “um grau de excelência definido” (EFLAND, 2008, p. 177), sendo as produções artísticas
isoladas de um contexto cultural e legitimadas em museus, distanciando-se da
experiência de vida; uma mediação que não problematiza essa questão pode
reforçar o distanciamento já que não há elementos contextuais para aproximação dos sujeitos com as obras. A
visão pós-moderna não considera só as grandes obras como passíveis de
constituírem um currículo, todo contexto cultural comporta culturas que não
foram eleitas para o círculo restrito da arte legitimada mas que mantém
estreitas ligação entre elas, como a cultura popular e de massa. Esta visão
pós-moderna torna o trabalho do mediador bem mais complexo mas alcança
resultados mais positivos se desenvolvido de forma a viabilizar experiências e
aprendizagens significativas diante da pluralidade de formas e produções
artísticas, selecionando e mantendo a rede de significados das experiências
ligadas à arte, trabalhando de forma estimulante à complexidade dessa visão
pós-moderna que amplia e aproxima.
A contextualização é muito importante na prática
pedagógica, situando e dando sentido à produções de todas as épocas. A mudança
de paradigma da visão de progresso é fundamental para compreendermos a História
da Arte a partir de múltiplas narrativas, evitando o etnocentrismo e o
anacronismo no processo ensino/aprendizagem. A história não é uma progressão de
acontecimentos, onde o posterior é melhor que o anterior; a arte e sua história
deve ser compreendida para gerar sentido ao que vemos e vivemos hoje. É
importante mostrar aos alunos que em todas as épocas da história houveram
pessoas, artistas, produções, inovações e acontecimentos que nos trouxeram onde
estamos, que tiveram o mesmo grau de importância para a contrução da
complexidade de ideias, sentidos, expressões e conhecimentos que cercam o ser
humano. Um desenho das cavernas é tão importante para a história da arte como
uma tela da renascença. Assim como, nas aulas, o aluno deve compreender que ele
não está ali para aprender a desenhar e pintar perfeitamente, mas sim
desenvolver sua forma de diálogo com a arte, onde uma produção nunca é melhor
que a outra; um desenho feito por ele hoje não é melhor que o feito aos três
anos de idade, sua forma de representação do que vê e sente é que mudou.
A arte contemporânea possibilita que o aluno se sinta
parte de um mundo onde antes, no ideário da maioria das pessoas, poderia fazer parte
apenas quem tinha dons; onde a ideia de exclusividade e originalidade permeavam
as produções artísticas. Nas aulas ele começa a perceber a variedade de
linguagens, materialidades, ferramentas, intenções que pode instigar seu fazer,
podendo operar com ressignificações, apropriações e releituras, sem definições
estilísticas. A superação da versão idealista e teleológica do modernismo é
importante para que os educadores superem a prevalência de modelos
universalizantes.
Como educadores- difusores e mediadores da cultura-
devemos pensar em formas de nos situar diante de nossos referenciais, de nossa
formação e prática através de representações e crenças pessoais. As ações
educativas decorrem de nossa história, nosso repertório; é importante pensar em
nós mesmos como seres em construção, inacabados, em processo também de mediação;
mas ao mesmo tempo usando toda a nossa experiência para gerar novas formas de
aprendizagem que aborde os novos paradigmas do mundo pós-moderno. Como situa
Darras (2009,p.37), a mediação cultural se distingui em duas grandes
abordagens; muitos educadores insistem em fundamentar-se na perspectiva
modernista promovendo somente a primeira delas, a “mediação diretiva”,que mais
se aproxima da difusão, da transmissão de informações. A segunda abordagem, a “mediação
construtivista”, garante o surgimento da construção dos processos
interpretativos no destinatário da mediação e também no mediador, através de
diversos meios inerentes à prática pedagógica, pensando em significado para as
aprendizagens e mediações em consonância com as perspectivas não exclusivas da
pós-modernidade.
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