sábado, 2 de março de 2013

Leitura e interpretação de imagens a partir do método de Edmund Feldman.



Imagens selecionadas:


Figura 1.
Farnese de  Andrade
Oratório do Demônio [The Devil's Oratory] , 1976
madeira e plástico, 89,5 x 49 x 38 cm (aberto)
Coleção Gilberto Chateaubriand - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica autoria desconhecida
Disponível em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_obras&acao=menos&inicio=9&cont_acao=2&cd_verbete=675
Acesso: 09/06/2012


Figura 2.
Ingeborg Ringer
Posando, 1991. Cerâmica, óleo sobre tela, madeira.
Disponível: http://www.arteamundo.com/ingeborgringer/obras2.htm
Acesso: 09/06/2012

De acordo com Ana Mae Barbosa, no livro “A imagem no ensino da arte”(2009, p.45-46), onde divulga a proposta de Edmund Feldman, o desenvolvimento crítico para a arte é fundamental; a capacidade crítica se desenvolve através do ato de ver associado a princípios estéticos, éticos e históricos ao longo de processos de descrição, análise, interpretação e julgamento.
Desse modo, a análise das duas imagens selecionadas perpassa esses quatro processos de forma comparativa em relação à técnica, materialidade e processo de criação.

1.      Descrição (inventário do que se acha visível na obra):
Na figura 1, a obra “Oratório do Demônio” apresenta um oratório e um demônio empalado dentre dele, com um tom puxado para o laranja como se fosse obra envelhecida pelo tempo, o artista utiliza como material a madeira e o plástico em uma linguagem um pouco difícil de definir, parecendo assemblage ou montagem. A segunda figura apresenta a obra “Posando” que mistura bidimensionalidade com tridimensionalidade, levando também à ideia de assemblage; a artista utiliza madeira, óleo sobre tela e cerâmica em uma conjunção de formas e cores que criam ilusão de um todo contínuo em espaços diferenciados, vemos um corpo de mulher dividido, onde a metade inferior pintada em uma tela serve como suporte para toda a obra, dessa tela brota o tronco esculpido de forma oca deixando um vazio por dentro do corpo, o rosto se mostra dentro de uma moldura fazendo alusão também à uma pintura, as mãos estão sobre a moldura como se fossem uma continuação dela, apoiadas e cruzadas dão uma impressão de descontração e sensualidade. As duas obras trazem inovação na linguagem e na utilização de materiais, misturando elementos inusitados.

2.      Análise (a relação entre os elementos visuais e os princípios que os organizam):
Na figura 1 elementos dramáticos trazem um confronto entre o sagrado e o profano, entre morte e vida; a imagem do demônio ocupa o lugar do santo de uma forma sacrílega; o formato de caixa do oratório parece abrigar o demônio como em um ventre, representando assim  o corpo materno como uma forma de proteção ao que é precioso ou frágil, um ser que está sendo empalado e ao mesmo tempo protegido do mundo externo traz uma ambiguidade ao olhar de forma provocante, perturbadora e vigorosa. A figura 2 relaciona seus elementos buscando um todo em partes desconexas que ilusoriamente parecem estar conectadas de forma harmônica e perfeita; as tonalidades da pintura e da escultura se misturam e trazem a impressão de continuidade, um corpo esguio de mulher que mostra estar aberto ou ferido, enquanto o rosto mantém a pose emoldurada por um enquadramento de braços rígidos e soltos ao mesmo tempo. Figuras policromadas em cerámica se combinam com madeiras pintadas em uma afinidade formal.

3.      Interpretação (a identificação de temas e idéias no trabalho com o objetivo de encontrar significados):
A obra da figura 1 é carregada de dramaticidade e uma certa morbidez que parece brincar com o sentido religioso do oratório ao empregar em seu interior uma imagem contraditória à adoração religiosa. A morte e a crença parecem ser temas centrais envolvendo os elementos que compõem a obra; a forma cruel com que o demônio está sendo castigado remete à ambígua ideia de punição pelos pecados e abrigo em um lugar sagrado, como se o sofrimento trousesse o merecimento à proteção dos males da vida e uma certa forma de idolatria, admiração e pena. A obra ressalta esse convívio do ser humano com objetos imateriais; a representatividade do passado, das lembranças, das crenças, sentimentos e sensações, toda essa carga afetiva em objetos antigos que compõem a forma dando expressividade ao conteúdo. Do mesmo modo a figura 2 apresenta uma obra inquietante, com um motivo desafiante ao espectador; parece mostrar a dor como algo cotidiano e não dramático ao trazer uma personagem posando de forma complascente, destacando uma vaidade que supera qualquer drama, sustentando o próprio retrato que mostra uma pose forjada para a visão dos demais como se precisássemos mascarar o que nos acontece internamente não deixando que nenhuma dor altere a vivência cotidiana neste mundo impactante. A sensualidade da personagem também traz significados conflituosos ao conjunto que mostra um corpo aberto como um ferimento, como um vazio que não encontra preenchimento, como se isso não importasse assume a postura ilusória que a mostra com um certo poder, com a possibilidade de se mostrar como quer.

4.      Juízo (tomar decisões sobre o êxito, o valor ou fracasso do objeto artístico):
Para o crítico Frederico Morais , a obra de Farnese de Andrade- figura 1- é uma conjunção de object-trouvés [objetos encontrados] que atuam em nosso inconsciente e parecem estar associados a algumas lembranças, mas sobretudo fazem parte de uma autobiografia que o artista construiu, aproximando-se do surrealismo e da pintura metafísica. A singularidade de seu trabalho, para o historiador Rodrigo Naves, está na carga afetiva, gerada tanto pela presença dos objetos antigos e rudimentares, com características altamente pessoais, marcados pelo uso e pelo tempo, envelhecidos, como por conter referências biográficas. O valor da obra está na forma como o artista traz significado a objetos antigos que marcam um passado no presente, marcam ideias conflituosas, alterando e reinventando certos temas, como vemos nessa obra a morte, a religiosidade e a vida sendo abordadas de forma bem singular e provocativa.
A obra de Ingeborg Ringer- figura 2- é também carregada de sentido, traz uma abordagem caracterítica da natureza humana em uma linguagem diferenciada que mistura lingugens viabilizadas por materiais diversos em uma rara afinidade formal.

O método comparativo de análise de obras de arte propondo a leitura de duas ou mais obras- como propõe Feldman- é importante para que os alunos façam leituras interpretativas levando-se em consideração vários aspectos relacionados às perspectivas da apreciação artística no campo educacional.
Em sala de aula, esse método contribui para a formação crítica do aluno operando com o diálogo e procedendo com a análise comparativa de várias obras; promovendo assim a compreensão da variedade de procedimentos, matérias, técnicas, suportes, temas , poéticas dos artistas em seus contextos etc, possibilitando que os pontos de vista se complementam, do espectador e do criador, pois ambos são importantes para o sentido de toda obra, se os alunos não se abrirem para a leitura e a apreciação significativa esse sentido se perde.
No entando, o julgamento como último processo do método de Feldman reforça o sentido de avaliação contida na ideia de apreciação; não devemos estimular os alunos a julgarem o êxito de uma obra e sim analisá-las de forma independente de gostos associados aos critérios sociais e culturais de um contexto; dessa forma, como consta no texto da disciplina, o apoio de críticas feitas por teóricos da história e estética da arte se faz necessária.
Podemos perceber que o currículo abrange o método de Feldman quando traz nos cadernos do aluno várias imagens de produções artísticas para apreciação. Sempre há a comparação de várias obras para reforçar o tema e conteúdo abordados. Um exemplo disso é a utilização- no volume 3 do caderno do 6º ano- da imagem da tela “Arrufos” (Belmiro de Almeida, 1887) juntamente com a de um espetáculo teatral de mesmo nome (Grupo XIX de Teatro, 2007) para abordar luz e sombra no teatro; a apreciação leva os alunos à leitura de imagens de uma produção teatral associada à uma visual, interpretando elementos comuns e diferentes das duas produções, compreendendo que uma linguagem pode acontecer inspirada e em diálogo com outra; além de aproximar os alunos da linguagem da luz em espetáculos teatrais associando uma produção contemporânea à uma histórica, contextualizando e tornando visível como o hoje se alimenta do ontem; possibilitando a experiência de perceber que se pode recriar a atmosfera da tela usando como iluminação apenas abajures em um espaço inusitado para teatro, onde a ideia contemporânea torna possível a criação de forma diferenciada. Em suma, a análise comparativa é essencial em sala de aula, na apreciação, leitura e interpretação de imagens.




Jalilian Stábile













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