Para que possamos entender como as questões culturais
da contemporaneidade funcionam e se manifestam é necessário abordar, mesmo que
sucintamente, as distintas visões de cultura do passado.
A concepção eurocentrista[1],
antes do século XIX, estava muito presente na noção de cultura, principalmente
aquela produzida pelos países colonizadores. Azevedo, escrevendo na segunda
metade do século XX, afirma que com e somente após a irrupção da antropologia[2]
foi possível levar em consideração a cultura de outros povos que outrora se
encontrava na mais baixa classificação cultural. Essa interpretação veio corroborar
com a ideia dos maiores expoentes da antropologia do século XIX: "tudo é
objeto de estudo: tanto as produções julgadas mais baixas quanto as mais
nobres” (Strauss e Didier, 1988, p. 229).
Inevitavelmente, o estruturalismo de Levis Strauss
nega as teorias racistas e exclusivistas que os teóricos anteriores à
antropologia tentavam formular e ao mesmo tempo montar, dando a impressão da
existência de uma classificação dentro da cultura. Isso justificava e
estimulava a submissão dos povos nativos que sofriam frente à dominação europeia.
A classificação arbitrária daquilo que não faz parte de nossos hábitos,
costumes e crenças, é o primeiro passo para o desejo de exercer dominação a
outrem. Devemos tomar cuidado, pois essa postura permanece até a atualidade. Percebemos,
que essa tentativa de hierarquizar as culturas (branco melhor que o negro;
urbanidade melhor que natureza etc.), incentiva a cairmos no erro de considerar
uma cultura mais capaz ou até mesmo mais evoluída que outra.
Essa limitação da cultura tem a mesma perversidade de
quando tentamos exaltar em excesso e colocar como melhores as especificidades
de cada povo. Essas duas visões extremistas, que parecem estar ainda hoje
enraizadas nas pessoas, devem ser superadas segundo Burke (1989, p.15) pela valorização
“de um sistema de significados, atitudes e valores partilhados e as formas
simbólicas (apresentações, objetos artesanais) em que elas são representadas ou
encarnadas”.
O partilhamento das culturas e o reconhecimento que,
se falando de cultura, não existe uma forma acabada e ideal seria o começo para
convivermos harmonicamente com pessoas e ambientes que se distinguem do
costumeiro. Um dos primeiros pensamentos distintivos aflorados nos homens foi
contrastar o seu estágio de organização social em grupo com a natureza ou
animalidade em específico. Na Grécia Antiga, os comportamentos que lembravam ou
remontavam as formas naturais de existências eram excluídos e considerados como
antilibertários. Desta forma o animal era classificado como um ser inferior,
pois era desprovido de organização abstrata e social.
Essa noção grega de colocar homem e natureza em dois
extremos é uma postura que perpassa os tempos antigos e respalda fortemente os
dias atuais. Talvez isso explique a grande aversão que os homens dos grandes
centros urbanos têm do meio natural, e por tanto tentar classificá-lo como
inferior e atrasado, esses mesmos homens se munem dos mais cruéis artifícios e
justificativas para destruir a natureza, tudo em prol do mundo capitalista e da
desigualdade social.
Rei Lear, sendo um homem de seu tempo, não poderia
abrir mão de toda sua posse, pois no século XVII, posses e terras eram
sinônimos de poder e reconhecimento. Ele mostra não querer aceitar perder sua
escolta, sendo que já tinha aceitado passar suas posses ás suas filhas fazendo
juz aos princípios de hereditariedade da época. Desta forma utiliza a natureza
em seu discurso, tentando mostrar às suas filhas que até mesmo um mendingo
precisa de coisas supérfluas além das necessárias, e que a natureza nos concede
apenas o que ela própria exige, demonstrando o repúdio a uma vida barata como a
dos animais, embora a própia natureza, em seu termo próprio da palavra, pareça
ter mais do que realmente precisa quando expõem exuberantes paisagens. Segundo
o rei, se todos os nossos bens forem retirados estaremos fadados a viver como
as “feras”, e regredir a um estágio inicial da existência.
Essa vontade de classificar e excluir, de sentir mais
apossado que os outros e até mesmo o receio de viver como os animais são
sentimentos e verdades que sempre estiveram presente em qualquer sociedade,
mesmo que em intensidades e roupagens diferentes. Talvez isso explique
parcialmente os insucessos das sociedades socialistas, das ONGS e de todas as
tentativas altruístas que jamais conseguiram ter uma atuação original, efetiva
e global.
[1] Eurocentrismo é uma idéia que
coloca os interesses e a cultura européia como sendo as mais importantes e
avançadas do mundo.
[2] Antropologia é a ciência que tem
como objeto o estudo sobre o homem e a humanidade de maneira totalizante, ou
seja, abrangendo todas as suas dimensões.
Jalilian Stábile
Nenhum comentário:
Postar um comentário