sábado, 2 de março de 2013

Distinção das noções de natureza, civilização e cultura



Para que possamos entender como as questões culturais da contemporaneidade funcionam e se manifestam é necessário abordar, mesmo que sucintamente, as distintas visões de cultura do passado.
A concepção eurocentrista[1], antes do século XIX, estava muito presente na noção de cultura, principalmente aquela produzida pelos países colonizadores. Azevedo, escrevendo na segunda metade do século XX, afirma que com e somente após a irrupção da antropologia[2] foi possível levar em consideração a cultura de outros povos que outrora se encontrava na mais baixa classificação cultural. Essa interpretação veio corroborar com a ideia dos maiores expoentes da antropologia do século XIX: "tudo é objeto de estudo: tanto as produções julgadas mais baixas quanto as mais nobres” (Strauss e Didier, 1988, p. 229).
Inevitavelmente, o estruturalismo de Levis Strauss nega as teorias racistas e exclusivistas que os teóricos anteriores à antropologia tentavam formular e ao mesmo tempo montar, dando a impressão da existência de uma classificação dentro da cultura. Isso justificava e estimulava a submissão dos povos nativos que sofriam frente à dominação europeia. A classificação arbitrária daquilo que não faz parte de nossos hábitos, costumes e crenças, é o primeiro passo para o desejo de exercer dominação a outrem. Devemos tomar cuidado, pois essa postura permanece até a atualidade. Percebemos, que essa tentativa de hierarquizar as culturas (branco melhor que o negro; urbanidade melhor que natureza etc.), incentiva a cairmos no erro de considerar uma cultura mais capaz ou até mesmo mais evoluída que outra.
Essa limitação da cultura tem a mesma perversidade de quando tentamos exaltar em excesso e colocar como melhores as especificidades de cada povo. Essas duas visões extremistas, que parecem estar ainda hoje enraizadas nas pessoas, devem ser superadas segundo Burke (1989, p.15) pela valorização “de um sistema de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simbólicas (apresentações, objetos artesanais) em que elas são representadas ou encarnadas”.
O partilhamento das culturas e o reconhecimento que, se falando de cultura, não existe uma forma acabada e ideal seria o começo para convivermos harmonicamente com pessoas e ambientes que se distinguem do costumeiro. Um dos primeiros pensamentos distintivos aflorados nos homens foi contrastar o seu estágio de organização social em grupo com a natureza ou animalidade em específico. Na Grécia Antiga, os comportamentos que lembravam ou remontavam as formas naturais de existências eram excluídos e considerados como antilibertários. Desta forma o animal era classificado como um ser inferior, pois era desprovido de organização abstrata e social.
Essa noção grega de colocar homem e natureza em dois extremos é uma postura que perpassa os tempos antigos e respalda fortemente os dias atuais. Talvez isso explique a grande aversão que os homens dos grandes centros urbanos têm do meio natural, e por tanto tentar classificá-lo como inferior e atrasado, esses mesmos homens se munem dos mais cruéis artifícios e justificativas para destruir a natureza, tudo em prol do mundo capitalista e da desigualdade social.
Rei Lear, sendo um homem de seu tempo, não poderia abrir mão de toda sua posse, pois no século XVII, posses e terras eram sinônimos de poder e reconhecimento. Ele mostra não querer aceitar perder sua escolta, sendo que já tinha aceitado passar suas posses ás suas filhas fazendo juz aos princípios de hereditariedade da época. Desta forma utiliza a natureza em seu discurso, tentando mostrar às suas filhas que até mesmo um mendingo precisa de coisas supérfluas além das necessárias, e que a natureza nos concede apenas o que ela própria exige, demonstrando o repúdio a uma vida barata como a dos animais, embora a própia natureza, em seu termo próprio da palavra, pareça ter mais do que realmente precisa quando expõem exuberantes paisagens. Segundo o rei, se todos os nossos bens forem retirados estaremos fadados a viver como as “feras”, e regredir a um estágio inicial da existência.
Essa vontade de classificar e excluir, de sentir mais apossado que os outros e até mesmo o receio de viver como os animais são sentimentos e verdades que sempre estiveram presente em qualquer sociedade, mesmo que em intensidades e roupagens diferentes. Talvez isso explique parcialmente os insucessos das sociedades socialistas, das ONGS e de todas as tentativas altruístas que jamais conseguiram ter uma atuação original, efetiva e global.



[1] Eurocentrismo é uma idéia que coloca os interesses e a cultura européia como sendo as mais importantes e avançadas do mundo.
[2] Antropologia é a ciência que tem como objeto o estudo sobre o homem e a humanidade de maneira totalizante, ou seja, abrangendo todas as suas dimensões.



Jalilian Stábile

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