sábado, 2 de março de 2013

Método iconológico, proposto pelo historiador da arte Erwin Panofsky



PARTE 1
A dinâmica dos meios de produção e do mosaico de experimentações culturais da sociedade capitalista modificou o conceito da arte clássica reposicionando progenitores e receptores do fazer artístico. Essa mesma dinâmica parece ter anulado o papel de observação inoperante e passiva da arte. Talvez se adequando a lógica produtiva e propagandista do mundo do capital a arte da atualidade é incorporada tanto no aspecto psíquico como material dos indivíduos; desta forma deixamos de ser observadores da arte e adquirimos a capacidade de participar ou protagonizar eventos e fenômenos artísticos. Analisando a Série Retirantes (1944-1945) de Cândido Portinari, com base nos pressupostos do método iconológico proposto pelo historiador da arte Erwin Panofsky, podemos adentrar em uma experiência estética que nos direciona à um contexto social representativo de um povo, mesmo que a produção da série tenha sido na primeira metade do século XX, percebemos que as características que demonstram os abalos físicos e emocionais decorrentes da dura vivência de migrantes é identificável também em nosso contexto; a visão do artista nos mostra uma realidade a ser pensada utilizando-se de uma dramaticidade proveniente de elementos estéticos da arte, denunciando a situação social brasileira, usando a pintura como forma de protesto. Para entender esse fenômeno artístico, inserindo-o no momento sócio-cultural de sua produção é importante passar pela inserção gradual das obras que compõem a série em três patamares complementares da iconologia. No primeiro momento, o icônico, observamos a dimensão plástica das obras: a técnica usada nas três obras é óleo sobre tela, em “Os Retirantes” vemos nove personagens de forma cadavérica dispostos como uma família, na composição encontram-se cinco crianças, sendo que em apenas uma delas pode ser identificado o sexo por estar exposto, deixando a genitália da criança exposta, as cores empregadas são tons de preto, marrom, branco/acinzentado e rosa/avermelhado, a monotonia marca o tom do ambiente, não há florestas nem montanhas para distrair a visão e atenuar a secura; em “O Enterro na Rede” a pintura é composta inteiramente por linhas, em especial por linhas intensas, que dão a impressão de uma arte entalhada, sombreamento e em algumas partes de tridimensão; suas linhas (retas e curvas) são perpendiculares, pois a imagem é repleta de eixos, a personagem na primeira camada tem mãos e pés circulares, os braços e costas formam um triângulo, a outra mulher é curva e sua mão quase forma um círculo, os homens são uma junção de retângulos, o ponto principal é o falecido sendo carregado na rede em forma triangular, o contraste entre as cores traz um sentido fúnebre; em “Criança Morta”, assim como os outros, a carga dramática se potencializa pela composição da pintura, um agrupamento humano do qual se projeta a criança morta tendo o predomínio do tom terroso que marca a parte inferior da tela, as lágrimas e o aspecto tenebroso das figuras humanas evidenciam o sofrimento.
No segundo momento,o aspecto iconográfico, as obras têm características modernas, o pintor retrata uma questão social através de pinturas que se aproximam do cubismo, surrealismo e expressionismo sem se distanciar totalmente da arte figurativa e das tradições da pintura; as figuras têm volume em contraste com as tonalidades obscuras; quase sempre sinistra e desolada a paisagem permite que se veja longe e fundo tornado tridimensional o espaço pictórico. No terceiro momento, o significado simbólico, iconológico, percebemos que as obras fazem parte de uma série que retrata problemas de miséria, ignorância, opressão nas relações de trabalho, apresentando a força da natureza sobre seres completamente desprotegidos em uma luta diária pela sobrevivência; a árdua caminhada de migrantes que seguem sem saber ao certo onde chegar, sem intenções de alcançar patamares maiores de uma vida que englobe satisfações pessoais, sem nenhum alicerce social, desejando apenas uma sobrevivência.

PARTE 2
Abordar questões econômicas, políticas e sociais existentes em uma obra de arte a um público jovem e até certa medida desprovido de conceitos artísticos e históricos é uma tarefa difícil. Entendemos que a dificuldade de encarar as ciências humanas como cientificas exatas se pauta na impossibilidade de reproduzir com exatidão as experiências dos seres no passado e a complexa subjetividade presente em qualquer produção ou manifestação artística. Podemos utilizar da iconologia, mas de modo complementar a outra gama de experiências provocadas pelas ações pedagógicas.
Os alunos têm dificuldade em se concentrarem para adentrar na fruição estética de imagens que tragam representações das variadas formas de arte nas diversas épocas e movimentos artísticos; o real sentido de uma apreciação iconológica deve ser estimulada pelo professor, gerando significados que dialoguem com o repertório desses alunos, utilizando meios que associem acontecimentos contemporâneos de suas vivências às questões temáticas do ensino-aprendizagem em arte, deixando claro a noção de que precisamos do ontem para compreender o hoje, e de que através da arte conseguimos ampliar nossa leitura do mundo; as próprias imagens nos mostra muito do mundo, um mundo que é visto de várias formas, representado de acordo com a poética pessoal de cada artista e que a cada olhar se amplia trazendo novos significados. O desvelamento do significado iconológico, icônico e iconográfico de um objeto artístico requer uma atenção nos pormenores da dimensão plástica do objeto artístico, ao momento cultural de que faz parte e a visão de mundo subentendida pela sua imagem.
Em todo o decorrer do processo histórico houveram modos específicos e particulares de existência característicos de certa época, condizente com a sociedade e com o contexto determinante de modos, costumes e manifestaçoes culturais que não estão totalmente retratados ou presentes nas fontes históricas e artísticas; todavia, o estudo aprofundado das fontes orais, materiais, documentais, musicais, artísticas etc, pode se complementar com métodos interdisciplinares facilitando a aproximada compreensão do passado. Infelizmente as testemunhas são mortais, os documentos são parciais, os vídeos e as fotos não trazem em si e em tempo real a exata dimensionalidade, temporalidade e sonoridade dos eventos históricos deixando escapar o que Lucien Febvre chamaria de “aspecto psicológico de cada época”. Todos esses fatores somados com a falta de noção da totalidade que existe hoje, principalmente das novas gerações que são bombardeadas pela superficialidade e banalidade das informações midiáticas compõe o quadro de dificuldade de assimilação de conteúdo na sala de aula.
Grombrich, um intelectual do século XX, racionaliza um modo de pensar que se choca diretamente com as percepções de arte do passado que segundo ele se deixavam levar por uma forte parcialidade e pelas teorias do “desenvolvimento histórico”( herdeiras do Iluminismo atingiram seu auge nos séculos XVIII e XIX); essas mesmas teorias tinham como objetivo atribuir sentidos finalistas para a história dos homens e consideravam como piores as produções artísticas da pré-história e de épocas passadas. Caracterizando e escalonando a pré-história como o mais atrasado estágio do ser humano, os teóricos do evolucionismo acreditavam justificar suas intenções. Grombich descartou essas explicações e aproximou-se das novas ciências, como antropologia, a psicologia e a história da arte, que pouco se familiarizavam com as teorias evolucionistas (finalistas) e julgadoras. A contextualização, sugerida por vários autores como Grombrich e Erwin Panofsky, pode ser o método necessário para despertar uma abrangência no olhar dos discentes quando forem fazer um estudo iconológico, que exige uma profunda viajem histórica resgatadora de preceitos políticos, religiosos, econômicos e culturais específicos. Esse método de se posicionar historicamente com consciência e cautela, levando em consideração as particularidades de cada época, ajudará os alunos evitarem a fortuita atribuição de valores (seus) contemporâneos aos homens do passado, evitando o anacronismo.


Jalilian Stábile

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