A dinâmica dos meios de produção e do mosaico de
experimentações culturais da sociedade capitalista modificou o conceito da arte
clássica reposicionando progenitores e receptores do fazer artístico. Essa
mesma dinâmica parece ter anulado o papel de observação inoperante e passiva da
arte. Talvez se adequando a lógica produtiva e propagandista do mundo do
capital a arte da atualidade é incorporada tanto no aspecto psíquico como
material dos indivíduos; desta forma deixamos de ser observadores da arte e
adquirimos a capacidade de participar ou protagonizar eventos e fenômenos
artísticos. Analisando a Série Retirantes (1944-1945) de Cândido Portinari, com
base nos pressupostos do método iconológico proposto pelo historiador da arte
Erwin Panofsky, podemos adentrar em uma experiência estética que nos direciona
à um contexto social representativo de um povo, mesmo que a produção da série tenha
sido na primeira metade do século XX, percebemos que as características que
demonstram os abalos físicos e emocionais decorrentes da dura vivência de
migrantes é identificável também em nosso contexto; a visão do artista nos
mostra uma realidade a ser pensada utilizando-se de uma dramaticidade
proveniente de elementos estéticos da arte, denunciando a situação social
brasileira, usando a pintura como forma de protesto. Para entender esse
fenômeno artístico, inserindo-o no momento sócio-cultural de sua produção é
importante passar pela inserção gradual das obras que compõem a série em três
patamares complementares da iconologia. No primeiro momento, o icônico, observamos
a dimensão plástica das obras: a técnica usada nas três obras é óleo sobre tela,
em “Os Retirantes” vemos nove personagens de forma cadavérica dispostos como
uma família, na composição encontram-se cinco crianças, sendo que em apenas uma
delas pode ser identificado o sexo por estar exposto, deixando a genitália da
criança exposta, as cores empregadas são tons de preto, marrom,
branco/acinzentado e rosa/avermelhado, a monotonia marca o tom do ambiente, não
há florestas nem montanhas para distrair a visão e atenuar a secura; em “O
Enterro na Rede” a pintura é composta inteiramente por linhas, em especial por
linhas intensas, que dão a impressão de uma arte entalhada, sombreamento e em
algumas partes de tridimensão; suas linhas (retas e curvas) são
perpendiculares, pois a imagem é repleta de eixos, a personagem na primeira
camada tem mãos e pés circulares, os braços e costas formam um triângulo, a
outra mulher é curva e sua mão quase forma um círculo, os homens são uma junção
de retângulos, o ponto principal é o falecido sendo carregado na rede em forma
triangular, o contraste entre as cores traz um sentido fúnebre; em “Criança
Morta”, assim como os outros, a carga dramática se potencializa pela composição
da pintura, um agrupamento humano do qual se projeta a criança morta tendo o
predomínio do tom terroso que marca a parte inferior da tela, as lágrimas e o
aspecto tenebroso das figuras humanas evidenciam o sofrimento.
No segundo momento,o aspecto iconográfico, as obras
têm características modernas, o pintor retrata uma questão social através de
pinturas que se aproximam do cubismo, surrealismo e expressionismo sem se
distanciar totalmente da arte figurativa e das tradições da pintura; as figuras
têm volume em contraste com as tonalidades obscuras; quase sempre sinistra e
desolada a paisagem permite que se veja longe e fundo tornado tridimensional o
espaço pictórico. No terceiro momento, o significado simbólico, iconológico,
percebemos que as obras fazem parte de uma série que retrata problemas de
miséria, ignorância, opressão nas relações de trabalho, apresentando a força da
natureza sobre seres completamente desprotegidos em uma luta diária pela
sobrevivência; a árdua caminhada de migrantes que seguem sem saber ao certo
onde chegar, sem intenções de alcançar patamares maiores de uma vida que
englobe satisfações pessoais, sem nenhum alicerce social, desejando apenas uma
sobrevivência.
PARTE 2
Abordar questões econômicas, políticas e sociais
existentes em uma obra de arte a um público jovem e até certa medida desprovido
de conceitos artísticos e históricos é uma tarefa difícil. Entendemos que a
dificuldade de encarar as ciências humanas como cientificas exatas se pauta na
impossibilidade de reproduzir com exatidão as experiências dos seres no passado
e a complexa subjetividade presente em qualquer produção ou manifestação
artística. Podemos utilizar da iconologia, mas de modo complementar a outra
gama de experiências provocadas pelas ações pedagógicas.
Os alunos têm dificuldade em se concentrarem para
adentrar na fruição estética de imagens que tragam representações das variadas
formas de arte nas diversas épocas e movimentos artísticos; o real sentido de
uma apreciação iconológica deve ser estimulada pelo professor, gerando
significados que dialoguem com o repertório desses alunos, utilizando meios que
associem acontecimentos contemporâneos de suas vivências às questões temáticas
do ensino-aprendizagem em arte, deixando claro a noção de que precisamos do
ontem para compreender o hoje, e de que através da arte conseguimos ampliar
nossa leitura do mundo; as próprias imagens nos mostra muito do mundo, um mundo
que é visto de várias formas, representado de acordo com a poética pessoal de
cada artista e que a cada olhar se amplia trazendo novos significados. O
desvelamento do significado iconológico, icônico e iconográfico de um objeto
artístico requer uma atenção nos pormenores da dimensão plástica do objeto
artístico, ao momento cultural de que faz parte e a visão de mundo subentendida
pela sua imagem.
Em todo o decorrer do processo histórico houveram
modos específicos e particulares de existência característicos de certa época,
condizente com a sociedade e com o contexto determinante de modos, costumes e
manifestaçoes culturais que não estão totalmente retratados ou presentes nas
fontes históricas e artísticas; todavia, o estudo aprofundado das fontes orais,
materiais, documentais, musicais, artísticas etc, pode se complementar com
métodos interdisciplinares facilitando a aproximada compreensão do passado.
Infelizmente as testemunhas são mortais, os documentos são parciais, os vídeos
e as fotos não trazem em si e em tempo real a exata dimensionalidade,
temporalidade e sonoridade dos eventos históricos deixando escapar o que Lucien
Febvre chamaria de “aspecto psicológico de cada época”. Todos esses fatores
somados com a falta de noção da totalidade que existe hoje, principalmente das
novas gerações que são bombardeadas pela superficialidade e banalidade das
informações midiáticas compõe o quadro de dificuldade de assimilação de
conteúdo na sala de aula.
Grombrich, um intelectual do século XX, racionaliza um
modo de pensar que se choca diretamente com as percepções de arte do passado
que segundo ele se deixavam levar por uma forte parcialidade e pelas teorias do
“desenvolvimento histórico”( herdeiras do Iluminismo atingiram seu auge nos
séculos XVIII e XIX); essas mesmas teorias tinham como objetivo atribuir
sentidos finalistas para a história dos homens e consideravam como piores as
produções artísticas da pré-história e de épocas passadas. Caracterizando e
escalonando a pré-história como o mais atrasado estágio do ser humano, os
teóricos do evolucionismo acreditavam justificar suas intenções. Grombich
descartou essas explicações e aproximou-se das novas ciências, como
antropologia, a psicologia e a história da arte, que pouco se familiarizavam
com as teorias evolucionistas (finalistas) e julgadoras. A contextualização,
sugerida por vários autores como Grombrich e Erwin Panofsky, pode ser o método
necessário para despertar uma abrangência no olhar dos discentes quando forem
fazer um estudo iconológico, que exige uma profunda viajem histórica
resgatadora de preceitos políticos, religiosos, econômicos e culturais
específicos. Esse método de se posicionar historicamente com consciência e
cautela, levando em consideração as particularidades de cada época, ajudará os
alunos evitarem a fortuita atribuição de valores (seus) contemporâneos aos
homens do passado, evitando o anacronismo.
Jalilian Stábile
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