sábado, 2 de março de 2013

"Pitoresco e sublime"



Discorrendo sobre o pensamento Iluminista do século XVIII, Ana F. Gouveia, considera que a natureza é apreendida pelos sentidos e a sua interpretação pode ser feita intelectualmente ou alterada pela acção. O processo artístico dentro da poética do “pitoresco” parte da sensação visual e chega ao sentimento, ou seja, parte de um processo físico para culminar num moral, tendo por base a natureza como a fonte dos estímulos sensoriais que se relacionam com o pensamento. Quanto à poética do “sublime”, esta traduz-se numa apreensão de uma realidade transcendental que se apoia no desejo de explorar o invisível ou sobrenatural por ser algo que inquieta. Mas para que surjam os signos e símbolos das ‘verdades supremas’, então, o papel das sensações visuais desvanece-se. (2002).
Dessa forma, percebemos a dialética entre uma poética do sublime que apela ao temor reverencial diante da natureza - que se apresenta grandiosa e hostil – e a estética do pitoresco que evoca imperfeições e assimetrias em cenas repletas de detalhes curiosos e característicos que procuram remeter a uma natureza acolhedora e generosa.
Segundo Argan, nos meados do século XVIII, o termo romântico é empregado como equivalente de pitoresco, referindo-se a uma arte que está em consonância com as teses iluministas, operando diretamente sobre a natureza, adaptando-a aos sentimentos humanos e às oportunidades e vida social (1996, p. 12). As paisagens pitorescas empregam, em geral, tonalidades quentes e luminosas, que destacam a irregularidade e a diversidade das coisas do mundo natural. Os cenários são compostos de amplo repertório: árvores, troncos caídos, poças de água, choupanas, animais no pasto etc. John Constable, um dos artistas pioneiros na percepção e estudo da mudança dos efeitos da luz e condições atmosféricas na arte, influenciado pelos paisagistas holandeses do século XVII, representa essas mudanças ao ar livre e o movimento das nuvens no céu em telas como A Represa e o Moinho de Flatford (1811). Sua pintura capta as variações da natureza, recusando a idéia de um espaço universal e imutável.
Com a sensibilidade voltada para os aspectos extraordinários e grandiosos da natureza, o termo “sublime” entra em uso no século XVIII indicando uma nova categoria estética, Em pleno classicismo, a estética do sublime interpela os valores reinantes ligados à ordem, ao equilíbrio e à objetividade, se dirige ao ilimitado, ao que ultrapassa o homem e todas as medidas ditadas pelos sentidos.
O tratado de Burke Uma Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Ídéias do Sublime e do Belo sinaliza um distanciamento em relação às idéias clássicas e racionalistas do início do século XVIII, anunciando preocupações que viriam a ser exploradas pelo romantismo. Segundo Burke "tudo aquilo que serve para, de algum modo, excitar as idéias de dor e perigo... ou versa sobre objetos terríveis, ou opera de maneira análoga ao terror, é origem do sublime; ou seja, é causador da mais forte emoção que a mente é capaz de sentir" (BURKE,1757).  Burke e, posteriormente, Kant defendem que a beleza não é o único valor estético; contemplando uma tempestade ou uma sinfonia de Beethoven, o sentimento seria do sublime, mais que do belo. Nas artes visuais, o culto do sublime conhece expressões muito variadas, embora seja possível localizar nele traços dominantes: o caráter visionário do sublime é representado, de modo geral, por cores empalidecidas e sem brilho, por traços marcados e gestos excessivos. As pinturas visionárias e fantásticas do inglês William Blake - como, Newton, 1795 e O Purgatório, 1824/1827 entre outras - as imagens alucinadas de Heinrich Füssli – em O Pesadelo, 1781, por exemplo - colocam em funcionamento a categoria estética do sublime, tipicamente pré-romântica em sua revalorização dos elementos irracionais e fantásticos da arte. O erotismo e onirismo que exalam de "O Pesadelo" de Füssli ou Fuseli (pintor de origem suiça, mas que passou grande parte da sua vida na Inglaterra). evoca uma atmosfera de sonho noturno ou irrealidade que se mostra contrártia à racionalidade do dia em uma pose de volúpia, tão caras aos valores da subjectividade romântica. Não deixando de citar Joseph Mallord William Turner e Caspar David Friedrich que são os dois artistas que melhor sintetizam o sublime na pintura; Turner, em suas pinturas, mostra a natureza com potência devastadora, como fogo ou força marítima; Friedrich apequena os homens em suas telas, revelando uma espacialidade majestosa.
No entanto, segundo Blake, as soluções trágicas e expressivas de Michelangelo Buonarroti enraizam a poética do sublime, ele seria o modelo do artista sublime; um “gênio” isnpirado que inspirou tantos outros da forma mais sublime por excelência; segundo o pintor e teórico da arte inglês Joshua Reynolds em seu último Discurso, de 1790, tanto as figuras de Deus como a imagem das sibilas pintadas por Michelangelo no forro da Capela Sistina provocam a mesma sensação das "mais sublimes passagens de Homero".
 



 


                                      
                                    John Constable -  Moinho de Flatford (1814)
                <http://vendoerevendolenise.blogspot.com.br/2012/01/tema-nuvens-1.html>







                                         
                                        Johann Heinrich Füssli - O Pesadelo (1781)
                            <http://cinedrio.blogspot.com.br/2008_08_01_archive.html>





Jalilian Stábile






Nenhum comentário:

Postar um comentário