sábado, 2 de março de 2013

Cultura imagética



O padrão de gosto na realidade dos adolescentes, assim como conceitua Home, está associado também à uma faculdade natural e não apenas sensorial; os sentidos tecem relações com a subjetividade de cada ser atribuindo a beleza ás coisas que o cercam, proporcionando uma satisfação no campo das ideias; mas esse padrão de gosto não está restrito preferencialmente à um dos sentidos, é influenciado pelo habitual estreitamento das ideias  e impressões do que é visto e sentido. De qualquer forma, a “cultura imaginética” provoca o estímulo apenas à visualidade, acarretando o costume de se ver sem pensar no que se vê,  já que as mensagens já se mostram codificadas.
O conceito de hábito ou costume valorizado pelo pensamento de Hume induz a ideia de casualidade, causa e efeito que surge do contato com acontecimentos e imagens repetidamente. O autor considera a possibilidade desses eventos observados não se repetirem sempre num padrão. Assim, o conhecimento se inicia no hábito de relacionar ideias, a partir de um julgamento ou uma escolha.
Segundo Ostrower, “as associações compõem a essência de nosso mundo imaginativo. São correspondências, conjecturas evocadas à base de semelhanças, ressonâncias íntimas em cada um de nós como experiências anteriores e com todo um sentimento de vida.” (Ostrower, 1993). Sendo assim, estas associações nos amplia a imaginação, possibilitando um mundo experimental de pensamentos e hipóteses, nos capacitando para atuar, associar, manipular e encaminhar estas associações em determinados rumos para criar e recriar. Na perspectiva de Hume, o hábito de associar é que dá origem ao conhecimento; não há um padrão de beleza único, o que torna o gosto livre. O padrão de gosto verificado na maioria dos alunos segue esse pensamento, eles gostam de algo porque estão habituados e inseridos em uma realidade que os induz a esse gostar, o juízo de gosto é associado ao senso comum ditado pela mídia televisiva ou internet.
Uma atividade muito interessante foi relatada por um dos cursitas: realizada em três turmas de 9º anos, partindo da obra “Guerra” de Portinari, a atividade propunha que os alunos, em grupo, criassem fotos que expressassem as suas ideias, seus conceitos de guerra; um dos grupos representou sua guerra muito próxima da leitura visual dos quadrinhos de super heróis, enquanto outro, deixou muito claro, o imagética do tráfico, do morro, demonstrando assim que o hábito pode sim se tornar padrão e estar inserido, em um primeiro momento, na produção cênica, visual, musical do nosso aluno. Segundo Pareyson:
A arte pode ser moral ou imoral. Há uma arte prenhe de sentidos morais, preocupações éticas, de ensinamentos práticos e há uma arte que, do ponto de vista de uma espiritualidade nutrida de moralidade, pode aparecer, justamente na sua consciência artística, profundamente imoral, sem por isso deixar de ser arte. (Pareyson, 2001, p. 50).

Para uma educação estética consciente faz-se necessário estimular os sentidos durante uma mesma aprendizagem, explorando as diferentes linguagens artísticas e ampliando o repertório da cultura imagética dos alunos, levando-se em conta que as novas mídias já induzem a um padrão de gosto e de sentido. Faz-se necessário valorizar a cultura do aluno, as manifestações populares, o folclore e todas as suas considerações, tentando promover outros diálogos com sua própria sensibilidade ampliando suas percepções, possibilitando outras experiências que irão construir seu conhecimento. Segundo Eisner, “refinar os sentidos e alargar a imaginação é o trabalho que a arte faz para potencializar a cognição. Cognição é o processo pelo qual o organismo torna-se consciente de seu meio ambiente.” (Eisner apud Barbosa, 2010, p. 10)
A contemporaneidade nos traz ou impõe imagens em uma velocidade impressionante juntamente com informações que perdem rapidamente sua mensagem. São cartazes, outdoors, filmes, anúncios, propagandas, videoclipes, grafites, tatuagens e tanta outras. É fato que vivemos em uma sociedade na qual a busca por definições de padrões é uma corrida rumo ao consumismo e que a cultura imagética promovida principalmente pela TV faz parte da realidade dos adolescentes. A mídia trabalha para que as imagens cheguem ao indivíduo de maneira a legitimar e afirmar não só o consumo mas também os modos de sociabilidade, fazendo da imagem algo a ser copiado. A TV não exige esforço mental, por isso os alunos não gostam de pensar diante dela e são resistentes aos filmes legendados que exigem maior atenção e acuidade. Uma minoria de alunos são leitores maduros e competentes, mas a maioria são leitores preguiçosos, capazes de ler porém não capazes de decifrar os códigos da leitura - passam pelas várias imagens do cotidiano sem se darem contam do que elas representam - olham mas não vêem, cabendo a nós educadores despertar a leitura destas mídias, deixando-os curiosos com o que acontece “atrás dos bastidores”, fazendo assim com que reflitam sobre o produto final apresentado.
Ao invés de formar indivíduos capazes de atuar de forma crítica, a indústria cultural se torna co-responsável pela formação de jovens anestesiados. Observa-se a capacidade de reflexão crítica quando buscam uma identificação com as coisas, que se expressa quando estão contemplando e consumindo ( buscam afirmação e em alguns casos andam em grupos). A importância da educação estética para valorizar a educação dos sentidos exige atividade mental, se isso não ocorre, não vai além das emoções para interpretar uma obra, pois não há o esforço para adquirir nada de novo. É por meio da educação estética que os alunos podem “desenvolver formas sutis de pensar, diferenciar, comparar, formular hipóteses e decifrar metáforas.” (Barbosa, 2010, p. 17). A educação estética envolve além de conhecimento e informação, o desenvolvimento pessoal e da personalidade através de uma atividade dialógica.
Conforme Arslan e Iavelberg (2009), a área de Arte requer encaminhamentos específicos porque deve considerar os conteúdos da área, mas também o temperamento dos alunos e a sua subjetividade. É papel do arte/educador orientar os alunos para a seleção dessas imagens, tanto as fixas quanto as em movimento, podendo ser trabalhadas com os alunos, em algumas oportunidades para que aprendam os procedimentos de como interpretá-las. Assim, pouco a pouco, o aluno interpretará sozinho, sem a orientação do educador, imagens do seu entorno: blogs, sites, álbuns, embalagens, entre outros, pois, segundo Rudolf Arnheim, é pela seletividade que a criatividade começa, adquirindo seus próprios hábitos e costumes baseado em conhecimentos absorvidos (apud Barbosa, 2009).
Hernández (2000, p. 140) propõe ao educador 11 critérios para a escolha de imagens da cultura visual:
1-    Ser inquietantes;
2-    Estar relacionadas com valores compartilhados em diferentes culturas;
3-    Refletir as vozes da comunidade;
4-    Estar abertas a múltiplas interpretações;
5-    Referir-se à vida das pessoas;
6-    Expressar Valores Estéticos;
7-    Fazer com que o expectador pense;
8-    Não ser herméticas;
9-    Não ser apenas a expressão do narcisismo do artista;
10-  Olhar para o futuro;
11-  Não estar obcecadas pela idéia de novidade.
Em comunicação oral no Centro Universitário Maria Antonia, o autor pontuou que precisamos perguntar aos alunos o que eles aprenderam sobre si mesmos em contato com cada obra disposta, mediante a experiência artística e estética. Os critérios traçados por Hernández vão de encontro às ideias de Hume no que diz respeito ao padrão de gosto depender do costume, do hábito e aproximação da convivência. Deste modo, esses critérios podem servir de referência para o arte/educador realizar escolhas de imagens para alunos, ou com alunos, ou ainda, propor que eles mesmos escolham imagens que sejam representativas de tais critérios, possibilitando desse modo, a reflexão constante sobre as imagens, os materiais, os suportes que estão impregnadas de história, ideologias, intencionalidades, cultura e formas relacionadas com o “fazer arte”.
Segundo Guerra (GUERRA, 2010), o ser humano é um produtor, decodificador e interprete de imagens, utilizando-se de signos para tornar concreto seus sentimentos e pensamentos, sendo assim, os alunos podem ter a oportunidade do contato com este mundo imagético, compreendendo e significando a si mesmo e ao outro, ampliando sua visão e construindo seu conhecimento.





Jalilian Stábile











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